terça-feira, 28 de agosto de 2012

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Votos de submissão


Caso você queira posso passar seu terno, aquele que você não usa por estar amarrotado.
Costuro as suas meias para o longo inverno…
Use capa de chuva, não quero ter você molhado.
Se de noite fizer aquele tão esperado frio poderei cobrir-lhe com meu corpo inteiro.
E verás como a minha pele de algodão macio, agora quente, será fresca quando for janeiro.
Nos meses de outono eu varro a sua varanda, para deitarmos debaixo de todos os planetas.
O meu cheiro te acolherá com toques de lavanda
- Em mim há outras mulheres e algumas ninfetas -
Depois plantarei para ti margaridas da primavera
e aí no meu corpo somente você e leves vestidos,
para serem tirados pelo seu total desejo de quimera.
- Os meus desejos, irei ver nos seus olhos refletidos.
- Mas quando for a hora de me calar e ir embora
sei que, sofrendo, deixarei você longe de mim.
Não me envergonharia de pedir ao seu amor esmola,
mas não quero que o meu verão resseque o seu jardim.

(Nem vou deixar – mesmo querendo – nenhuma fotografia.
Só o frio, os planetas, as ninfetas e toda a minha poesia.)


Fernanda Young

Sobre o fim das coisas

Durante uma de minhas caminhadas vi um poodle fugir por entre as pernas da dona ao abrir o portão para receber uma vizinha. Ele correu como se nunca tivesse  sentido a luz do sol, o perfume da grama, o vento da rua... feliz, muito feliz. A sra dona do cão corria logo atrás aos gritos de desespero: “Vooooolta Luck!” Observei a cena por uns instantes e não soube de quem tinha mais pena: se era do cão pela ilusão momentânea de “liberdade” ou da dona pela falsa ideia de “propriedade”. Nada nos pertence!
Comprei há alguns anos uma bolsa que me apaixonei a primeira vista. Hoje, voltando para casa, notei o desgaste de suas alças, as manchas de seu interior e me indignei: tinha que durar pra sempre! Não quero outra! Quero esta que me cativou! Pensei nas mudanças que vivemos a contra gosto porque as coisas acabam. Tudo, impreterivelmente. Porém se engana quem pensa que tudo é descartável. Algumas lembranças são tão presentes que muitas vezes se recorrem a especialistas do “descarrego” para liberar espaço para o novo. E ainda assim, nem sempre as novas peças são do mesmo formato do vazio que tentam preencher.
Voltando ao cão fugitivo. Me perguntei o que faria se percebesse algo que tanto me cativou escapar-me por entre os dedos... Me peguei correndo pela rua a encorpar o coro: ”VOLTA LUCK! VOLTA!” Ele voltou correndo e pulou no colo daquela senhora que já estava aos prantos. Sabe ás vezes, o mesmo amor que nos move é também o que nos faz querer ficar...
Amante de Saint Exupery, por muitos anos acreditei na frase da carente raposa ao Pequeno Príncipe: “Tú te tornas eternamente responsável por aquele que cativas.” Bobagem! Aliás, maldade! Porque o amor é gratuito. Daí sua beleza e sua crueldade.

Por fim, com o coração queimando, abri o meu portão.

“O amor jamais passará.”  I Cor 13-8

terça-feira, 3 de julho de 2012

Mais humor, por favor!

Há algumas semanas atrás ouvi uma história fantástica de um professor tão fantástico quanto. Aliás, este me ensinou conceitos de Logística. Conceito que para mim pode ser resumido em uma busca mecânica e incansável de neutralizar temporariamente o caos. Até porque elimina-lo não é nada inteligênte: inibir o caos representa estagnação. Crescer requer riscos!
Mas não era sobre Logística que iria falar-lhes, nem sobre meu mestre que inspirou este texto, mas sim, sua partilha generosa sobre lembranças de sua fase no colégio militar.
Inicialmente destacou-nos o convencional: precisão e disciplina aplicadas desde a formação em ciências exatas até o corte de cabelo. Lá, onde o erro é fatal, assim como na Logística, passou grande parte de sua juventude. Mas, no emaranhado de boas recordações, nos contou um dos episódios em que saíra do alojamento pulando o muro com outros amigos. As 22h00 as luzes se apagavam. Lá fora só muros e sentinelas devidamente armados. Fronteiras que muitas vezes não eram suficientes para contê-los. Naquela noite planejaram uma farra na cidade mais próxima. Como de costume, aguardaram o apagar das luzes, enrolaram travesseiros nas cobertas para simularem que estavam em um tranquilo sono, passaram pelo pátio assoviando para alertar ao sentinelas que estavam saindo. "- Mas e se eles não ouvissem os assovios?"   Rindo me respondeu: "- Nos mandariam bala!"
Passaram a noite fora e voltaram antes de amanhecer. Assoviaram novamente e, depois de um tempo ouviram a resposta do outro lado do muro garantindo a segurança deles: outro assovio. O primeiro do grupo começou a subir e ouviu do outro lado: "- Ei! Tá limpo! Me dá sua mão que eu te puxo!"   Fez isso e voltou com êxito. Um a um atendeu ao chamado da voz que vinha do outro lado. Por fim, chegou a vez do meu professor que, sem saber, também daria a mão a um 'algoz'. Assim que chegou do outro lado ouviu uma voz grave e rouca lhe questionando “- Nome?”   Branco, mais do que já é, olhou para a direção da voz e viu um homem alto, com bigode volumoso e ligeiramente enrolado nas pontas: "- Capitão!"   O oficial tinha um sorriso irônico, até então nunca visto, e após anotar o nome de cada um que fora resgatado no muro dizia: "- Tá preso!"
Todos eles passaram o resto da noite na prisão do quartel e riram até de manhã com o ocorrido. Aliás, riem há 50 anos... Algo que ‘fugiu’ do processo planejado, o que culturalmente subentende-se como erro, resultou em um fragmento de felicidade Kairós (o que não se mede no tempo). E isso só acontece com quem percebe a graça da vida: crescer, amar, viver requer riscos! Se tudo tivesse ‘dado certo’, eles não teriam experimentado a liberdade que o humor dá: deixar a culpa e o rancor do lado de lá do muro!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Homeopatia

Hoje espetei o dedo em uma farpa de madeira. Sempre que uma delas entrava em meu dedo era meu pai que me salvava. Com sua mão grande e pesada, ele adquiria um cuidado e precisão admiráveis. Uma farpa, quando invade nossa couraça protetora nos provoca dor, mas a única maneira de não deixar que o restante do corpo padeça é cutucando-a para extraí-la o quanto antes. Espreme-se o dedo, belisca com uma pinça, espreme um pouco mais, até que ela se entrega e a retiramos para alívio imediato.
Engraçado que o mesmo ocorre quando a ferida é no coração. O problema é que não existe pinça para isso. Ela fica lá, latejando, inflama o humor, incomoda o sono, arde o olho.
Assim como o corpo se move rapidamente para defender-se do que está causando a dor enquanto o local afetado melindra cuidados, nestes momentos temos a ligeira impressão que o mundo está indiferente, rodando acelerado, enquanto nós estamos fragilizados, impactados, desacordados... Tal qual o conto da Bela adormecida.

Coincidência ou não, estas tais farpas que um dia me atingiram também foram tratadas pelo meu pai. Sua paciência, seu abraço e seu conselho me proporcionaram diversos momentos de alívio. Ele me ensinou que é preciso ter coragem: espremer, remexer, forçar a ferida até que se desprenda aquilo que me feriu. E esta experiência de sabor amargo pode ser passageira... se quisermos. Pelo menos penso que era nisso em que acreditava Carlos Drummond de Andrade quando dizia “A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”
Quando provamos de um remédio do qual o gosto não nos agrada, a primeira reação que temos de é implorar: - Água, por favor! O mesmo acontece com nossa alma: anseia o alívio do choro. Pois, já sabia Antoine de Saint-Exupéry que “a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar...”
Então, se me permite um conselho: chore. Sem reservas. Deixe o luto ocupar seu devido lugar no tempo para que ele não seja eterno. Até quando dormirá? Seja dono de si e decida por lutar, correr atrás, virar a página antes que conto acabe em meio a uma pilha de livros empoeirados e perceba que o tempo não volta mais.

Por fim, escrevi. Pois, assim como Clarice Lispector: “um amigo me chamou pra cuidar da dor dele, guardei a minha no bolso. E fui.”

Minhas sinceras desculpas
















"Deus de vez em quando me tira a poesia.
Olho para uma pedra e vejo uma pedra"

Adélia Prado

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Faxina

Eu vou tirar você de mim.
Seu gosto da minha imaginação.
Sua voz da minha pulsação.
Eu vou tirar. Juro que vou!

Seu nome dos meus olhos.
Seu rosto do meu ócio.
Seu cheiro do meu suspirar.
Seu humor do meu gargalhar.
Eu vou tirar você de mim.
Suas ideias dos meus planos.
Suas palavras dos meus banhos.
Eu vou tirar. Juro que vou!

Sua ausência da minha saudade.
Sua fé da minha verdade.
Seu desapego do meu ciúme.
Sua opinião do meu perfume.

E quando não restar mais nada,
Por favor, amor, deixe a porta fechada.